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Equívoco de uma semana

Notificação!
O texto abaixo publicado foi rejeitado pelo glorioso Jornal Circulando(Jornal de Laboratório do Curso de Jornalismo da Univale), sob alegação de que houve nele falta de ética e desrespeito às bibliotecárias, se você for uma bibliotecária, por favor, não prossiga com a leitura, pois, não quero ser alvo de processos judiciais contra a vossa honra e nem tenho dinheiro para pagar advogado, se mesmo assim quiser ler, eu não me responsabiliso pelos efeitos colaterais da leitura. No entanto, se não for bibliotecária, boa leitura!

No fim de uma manhãzinha de trabalho de matar qualquer um, eu, com meus dois inseparáveis livros de Fernando Sabino, cada um de uma biblioteca, saí do meu trabalho em horário de almoço e fui até a biblioteca pública para devolver o que era de lá: com muito pesar, subi as escadas da biblioteca e deixei o outro, que era da outra biblioteca, no guarda volumes, porque dificilmente eu sairia de lá com ele nas mãos sem ser, antes, acusado de furto de livros, pelo menos ganharia um título raro, numa época em que roubam todo tipo de obra de artes, com exceção dos livros, o que evidencia a falta de cultura dos ladrões desse país.Quando entrava, olhei lentamente para a direita e vi uma senhora com uma expressão estranha que me olhou e disse prontamente: O que você deseja? Eu, naturalmente, estava devolvendo o livro na data certa, disse apenas que queria fazer a devolução. Ela, cheia de razão,olhou para a data que eu deveria devolver o livro ,olhou pra mim e disse que infelizmente eu teria que pagar uma multa, porque hoje é dia vinte e sete de julho. Naquele momento eu passei por todos os manicômios mentais possíveis, mas nenhum psiquiatra, provavelmente mais loucos do que eu, conseguiu constatar a minha loucura, e eu, provavelmente mais louco que a bibliotecária, convencido de minha razão e da sua loucura disse a ela, vitorioso, apontando para um calendário de propaganda que estava em sua mesa: Em que mundo você está minha senhora? Hoje é dia vinte de julho, olha aqui ó! Ela, meio envergonhada, custando admitir o equívoco, chamou outra mais distraída que ela, que passava despercebida por ali e indagou, provando mais uma vez que não acreditava em mim: “Que dia do mês é hoje?” A outra, com cara de que estava mais voada ainda, o que me fez não acreditar muito nela, me surpreendeu e disse: Hoje é vinte de julho, por quê? A bibliotecária, sem querer admitir a burrice cometida respondeu: Não, não era nada.Obrigada. Eu saí até pisando alto, e subi correndo até o segundo andar da biblioteca em busca de outro livro pra ler, não posso ficar sem um livro na minha cabeceira, e até ouso admitir o pecado de que, ás vezes, eles me servem de sonífero à noite.
Cheguei lá em cima, pensei estar dando de cara com um fantasma, naquele lugar aparentemente obscuro e cheio de livros empoeirados, mas não, era uma das bibliotecárias, que, em nossa geração, inutilmente conhece cada estante daquela biblioteca. Geralmente, eu chego lá e vou direto na prateleira onde ficam os livros do meu autor preferido, mas, hoje, eu me perdi entre os livros de teatro e poesia, e por fim peguei um de Vinícius de Moraes, de muito bom gosto, ao menos pelo que folheei dele lá na hora. Desci as escadas euforicamente: já tinha gastado meia hora do meu horário de almoço que é curtíssimo.
Quando cheguei no balcão para passar o livro que pegaria emprestado, a bibliotecária, ainda perplexa pelo equívoco dos sete dias olhou para mim e perguntou : Será que eu estou caducando?
Eu disse, provavelmente está. Ela fez uma cara de descontentamento, como se não tivesse me perguntado nada, pegou o livro e foi preenchendo uma fichinha de controle. Ao terminar de preencher a fichinha ela me perguntou se eu ia levar só um, em plenas férias. Eu disse a ela que trabalhava o dia todo, portanto, só lia a noite e ela, cheia de compaixão porque provavelmente esqueceu que eu a chamei de caduca me deu dez dias a mais no empréstimo e ainda me desejou boa tarde. Eis aí a vantagem da sinceridade. Eu desejei a ela uma boa tarde de trabalho, e segui para casa com meus dois inseparáveis livros, o outro de Fernando Sabino, outro de Vinícius de Morais.

Obrigado pela leitura da postagem
Atenciosamente
Ítalo Chesley